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Platão e as facetas do amor

Platão e as facetas do amor

“Não temos nada além do amor.
Não temos antes, princípio nem fim.
A alma grita e geme dentro de nós:
– Louco, é assim o amor.
Colhe-me, colhe-me, colhe-me ”
(RUMI)

 

Por Juliana Fischer de Almeida*

Platão (428 – 347 a.C.), considerado um dos grandes pensadores da humanidade, deixou um legado imenso nos seus escritos. Viveu num momento de revolução cultural em que a tradição antiga passava da oralidade para a escrita, recuperando o valor cognoscível dos mitos por meio da superação dos limites do seu tempo e proporcionando uma dimensão nova a atemporal de suas ideias. O filósofo escrevia em forma de diálogos e a temática do Amor foi discutida principalmente no O Banquete e no Fedro.
Para Reale e Antiseri, “a análise do Amor situa-se entre as mais esplêndidas análises que Platão nos deixou. O Amor não é belo nem bom, mas é a sede da beleza e bondade. O Amor, portanto, não é Deus (Deus é somente e sempre belo e bom) nem homem. Não é mortal nem imortal […], o Amor é “filo-sofo” no sentido mais denso do termo. […] a filosofia é o apanágio daquele que não é nem ignorante nem sábio, daquele que não possui o saber, mas a ele aspira, daquele que sempre busca alcançá-lo e, tendo-o alcançado, lhe foge e deve procurá-lo novamente, justamente como faz o amante.” (2007, p.150, grifo dos autores). Portanto, para Platão o verdadeiro Amor consiste em percorrer um caminho com vistas a sabedoria, é um desejo de possuir aquilo que é belo e bom e que falta.
Neste sentido, o Amor é louvado como sublime cuja jornada a ser percorrida equipara-se à atividade filosófica, com o despertar da alma para a reminiscência de uma beleza que já fora contemplada em tempos vindouros junto aos Deuses. Num repertório épico Platão afirma: “É o que mortais, sim, Amor, volátil chamam e imortais o Alado, por força de criar asa.” (2106, p.97). No Fedro há uma construção narrativa mítica para o Amor e de forma sucinta apresenta-o como uma nostalgia ao transcendente, ao mundo meta empírico, sendo uma força que nos impulsiona.
Em um dos trechos de Fedro, Platão discorre: “o Amor dos belos jovens cada um escolhe o seu jeito, e como se fosse propriamente um deus, o jovem fabrica e adorna para si uma imagem dele, como para honrar e render secreto culto. Aqueles então que foram do séquito de Zeus procuram que algum Zeus seja de alma por eles amado; examinam se ele é de natureza amigo do saber e apto à liderança, e quando o encontram e o amam, tudo fazem para que assim ele seja. […]. Por conseguinte, a aspiração dos verdadeiros amantes, a sua iniciação se consegue aquilo que aspiram pelo modo como estou dizendo, eis com que a beleza e felicidade se produz para o amado que o amigo em delírio de amor tenha conquistado.” (idem, p.100/101).
Assim, os amantes na dimensão da alma encontram-se e numa escala de ascensão, desejam o saber, tendo no ápice do delírio amoroso a visão reluzente do belo, produzindo uma conquista inexorável para aqueles que transcorreram o percurso e transformaram-se em amantes e amados pela sabedoria. Como numa fórmula poética, o filósofo desprende uma devoção ao Amor em uma força desmedida à vida do amante que trilha o trajeto da progressão amorosa.
Se no Fedro a atenção dada ao Amor foi relacionada à sabedoria, no O Banquete a questão que se formula é a contradição de Eros, expondo outra faceta do conceito. De acordo com Jaeger, a ideia do O Banquete é desenvolver a concepção do Eros como “[…] uma força propulsora que se converte em educadora para o próprio amante, a quem faz subir constantemente do escalão inferior para o superior. […] e se dá conta de que existe uma beleza espiritual, aprende a tê-la em mais alto apreço que a Física e prefere graça e a forma da alma, ainda que não habitem num corpo muito formoso. É a fase em que o seu éros converte-se também em fonte de educação […] o amante está agora livre da servidão que o prendia com os grilhões da paixão de um determinado ser humano ou a uma determinada atividade predileta.” (2013, p. 748/749).
Com essa significação humanista do Eros, Platão impulsiona o homem a uma expansão do se “eu” por meio da educação erótica que nos leva à contemplação de uma beleza espiritual desligada dos fenômenos e das relações concretas, ligadas à paixão. O Eros platônico se distancia daquele formulado pela tradição – Hesíodo – porquanto não é apenas um apetite irrefletido, vulgar e sensual, mas agora, é visto como um impulso para servir o bem e a perfeição do amado, perfazendo uma dialética do Eros.
O Amor, neste contexto, relaciona-se a um campo de ação de um desejo universal do que é belo na sua essência. Os diversos estágios de ascensão amorosa são descritas pelo filósofo, novamente, dentro de uma perspectiva mitológica, apresentando-os como uma harmonização da vida e do universo. Numa passagem do O Banquete, Platão, afirma: “[…] o Amor, é o amor pelo belo, de modo que é forçoso o Amor ser filósofo e, sendo filósofo, estar entre o sábio e o ignorante. E a causa dessa sua condição é a sua origem: pois é filho de um pai sábio e rico e de uma mãe que não é sábia, e pobre.” (2016, p.124).
Como se pode observar, a construção do amor em Platão nos fornece um olhar de evolução, pois o verdadeiro estágio amoroso demanda uma jornada que leva o despertar da alma para o espiritual e para o que é divino. Na produção intelectual do filósofo o amor nos leva aos céus pelas suas asas nos guiando rumo a nossa essência e ao encontro com Deus. Por fim, amante e amado se unem e se fundem no delírio que o amor proporciona aos amantes ávidos pelo conhecimento e cientes que não sabem, mas que desejam.

Referências:
JAEGER W. Paideia: a formação do homem grego. Trad. Artur M. Parreira. São Paulo: Martins Fontes, 2013;
PLATÃO. Fedro. Trad. José Cavalcante de Souza. São Paulo: Editora 34, 2016;
PLATÃO. O Banquete. Trad. José Cavalcante de Souza. São Paulo: Editora 34, 2016;
REALE, Giovanni e ANTISERI, Dario. História da filosofia pagã e antiga. Vol.1. Trad. Ivo Storniolo. Paulus: São Paulo.2003.

*Juliana Fischer de Almeida
Advogada Pública, licenciada em filosofia, Mestre e Doutoranda em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Atualmente, é pesquisadora do Grupo de Pesquisa Instituições Políticas e Processo Legislativo, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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