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PRODUTO MEDIÚNICO: Como identificar?

PRODUTO MEDIÚNICO: Como identificar?

Por Anna Paula Michels

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reportagem publicada na edição 7 da SER Espírita impressa

Que todas as pessoas são espíritos, já se sabe pela própria crença generalizada na reencarnação. O que se está descobrindo aos poucos é que, na condição de espíritos encarnados na Terra, todos são médiuns. Como espíritos e médiuns, pode-se deduzir que todos têm a capacidade de fazer comunicação entre os polissistemas material e espiritual, participar deste processo e gerar um produto mediúnico.
Mas como saber se um texto, uma pintura, um desenho ou uma fala são expressão da mediunidade, se realmente são um produto mediúnico? Como não correr o risco de a mensagem ser efeito apenas da vontade do médium, o chamado animismo*, e não uma composição entre encarnado e desencarnado, já que o processo mediúnico ocorre de maneira tão sutil?
Segundo o engenheiro elétrico e Doutor em Ciências, Raul José Fernandes de Oliveira, a tarefa não é fácil. Ele acredita que, antes de tudo, é necessário experiência. “É preciso ter uma boa experiência com a própria mediunidade para saber quando se alcançou o estágio de estabelecer comunicações mediúnicas efetivas”, afirma. E esta experiência se conquista com a prática constante. Para o engenheiro, o mais importante “é saber o que é realmente nosso, em relação a pensamentos, concepções, associações e o que foi obtido por meio de uma origem mútua (encarnado mais desencarnado). E a questão volta àquilo que é fortemente veiculado na Doutrina dos Espíritos: “as pessoas devem se autoconhecer para saber quem realmente são e o que sabem”, enfatiza.
Outro aspecto apontado por Oliveira, que auxilia na definição de um produto mediúnico, é que ele “será sempre um resultado que apresenta forma, significado, uso e função definidos; contendo valores universais, alternativos, especialistas e individuais relativos às partes envolvidas”, (veja quadro). E estas características seriam a representação do envolvimento das duas partes produzindo o novo. “A produção do novo indica que há uma interfecundação nos envolvidos, ou
seja, ambos crescem com a concepção do resultado obtido ”, afirma. Seguindo esta linha de pensamento entende-se que, se não há a geração do novo, não há produto mediúnico real. “Geralmente o que não é resultado do processo mediúnico apresenta uma amplitude de conhecimento que o grupo ou alguns envolvidos em particular detêm ou fazem conexão, devido a conteúdos prévios já consolidados. Então o novo não é gerado e sim apenas uma reprodução do que já estava estabelecido culturalmente”, explica Oliveira.

O PRODUTO MEDIÚNICO DEVE TRANSFORMAR E VITALIZAR
O pedagogo e professor Reginaldo Francisco Domingos também não acredita que seja fácil evidenciar e definir um resultado mediúnico, pois é um processo natural do homem. “A mediunidade é efetivamente a comunicação sutil da essência do ser humano com a vida, numa dimensão não material. Ela permite a integração do encarnado com o desencarnado e com a fonte criadora, que é Deus. Isso confirma que é algo inerente ao homem, como espírito, pois faz parte da sua evolução”. Diz ainda que a mediunidade pode ser percebida nos fatos do dia a dia como, por exemplo, num entardecer. “É a percepção da natureza, a transcendência, a interação
com Deus. Sensibilidade esta que vem por meio de um momento mediúnico, um enxergar além do físico”. Mas ele lembra que o essencial é que o produto mediúnico faça transformação e valorize o ser humano. “O produto mediúnico é sempre a soma, a integração, a combinação entre o médium e o espírito comunicante. E apresenta uma estrutura vitalizadora, renovadora, que busca constantemente a promoção e a valorização da pessoa humana. Se fugir disso, não poderá ser considerado produto da mediunidade”, pondera.
Outro fator que merece atenção no momento de avaliar a veracidade do produto em uma manifestação mediúnica é a sua autenticação, que é sempre feita pelo médium. “Quem autentica o produto é o médium, pois é ele quem está vivendo no mundo material, por meio do seu processo reencarnatório, este momento histórico de transformação e de crescimento”, explica Domingos. E o médium faz esta autenticação materializando os princípios doutrinários espíritas por meio de suas ações. “Há uma grande responsabilidade, pois o médium tem o desafio de integrar a Doutrina, por meio do seu conhecimento, à expressão do seu ser, àquilo que ele
realmente é ”, diz Domingos. Por isso a importância, mais uma vez, do autoconhecimento. A autenticação também deve ser feita por quem recebe a mensagem, pois isto previne situações nas quais o produto mediúnico não é verdadeiro.

PSICOGRAFIA, PSICOFONIA, PSICOPICTOGRAFIA E PSICOMUSICA:
FORMAS DE PRODUTOS MEDIÚNICOS
A expressão da mediunidade e a produção de um conteúdo mediúnico podem também ser realizadas durante as chamadas formas pontuais de comunicação: a psicografia, a psicofonia, a psicopictografia, a psicomusica, etc. Estas atividades são trabalhadas e aperfeiçoadas em grupos de estudos nos centros espíritas de todo o país. Os aspectos mais trabalhados durante estes exercícios são concentração, reflexão e sensibilização, sempre com o intuito de gerar um produto útil à equipe e à sociedade.
É o que conta a advogada Eliane Cristina Rossi Chevalier, participante
de grupo de psicografia. “O grupo se reúne uma vez por semana com o objetivo de produzir textos com conteúdo voltado à promoção humana e à justiça social. Trabalhamos com sintonia e frequência e é isto que norteia as atividades”, conta.
Eliane relata que normalmente cada participante escolhe um tema que seja de seu interesse para dar início ao trabalho de concentração. “Cada um se concentra e discorre sobre o tema que lhe aprouver, naquele instante em que se sinta mais à vonta
de, em que lhe aguce os sentidos. É justamente neste momento que se encontra toda a tônica do trabalho: a sensibilidade de cada médium no desenvolvimento do texto, de acordo com a somatória da sua trajetória de vida”. E é nesta hora que o produto mediúnico pode ser gerado. Mas não há a obrigação de acontecer, como explica Eliane. “Trabalhamos com a somatória das experiências entre encarnado e
desencarnado e, diante de todo um ambiente preparado para isso, haverá sempre essa adição. Mas o importante é que o produto reflita a mentalidade daquele momento, tanto do médium quanto do grupo”.
A professora e conservadora de museus, Silmara Küster de Paula Carvalho, coordenadora de um centro espírita em Brasília, acredita que para acontecer o alcance de um produto mediúnico seja importante um longo período de pesquisa e capacitação. “Não há atalhos, se exige continuidade e persistência, estudo e avaliação, além do consentimento do médium e do espírito”, avalia. Silmara, que participou de um grupo de psicopictografia durante 14 anos, enfatiza que para confirmar se realmente trata-se de um produto mediúnico é importante perceber se é uma obra inédita. Citando Antonio Grimm (um dos espíritos orientadores da casa espírita que faz parte) ela lembra que “o resultado da expressão mediúnica deve superar a experiência e o conhecimento dos participantes”.
Outro aspecto importante dos grupos é a contribuição que a participação neles traz para a vida, mudando a maneira de enxergar os desafios do dia a dia. “O exercício mediúnico e as atividades nestes grupos não se restringem ao tempo em que estamos nas reuniões ou ao produto mediúnico, mas numa soma e interação contínua com a vida. Sensibilizamo-nos para uma leitura mais crítica da realidade, olhamos mais para o próximo, nos aproximamos mais da natureza e nos percebemos nela”, relata Silmara.
Para Eliane, as mudanças são significativas. “Não há como permanecer a mesma pessoa, pois fazemos muita reflexão sobre o nosso dia a dia. Deparamo-nos com a mesma situação anteriormente vivida, mas nossa reação será diversa. Aprendemos que determinada atitude irá nos desequilibrar e também terá suas consequências, já que a frequência e a sintonia que atingiremos são adequadas para que vivamos em harmonia”. E acrescenta: “a mudança é com a consciência que se adquire da responsabilidade diante das coisas que nos cercam. Não é apenas a mudança em nos tornarmos melhores, mas da própria consciência da importância do existir. O imediatismo dá lugar a uma visão alongada sobre a nossa existência e este impacto nos faz evoluir”.
A esta ideia une-se Ângela Benghi, advogada e participante de um grupo de psicografia, que também percebeu mudanças em sua vida. “Por causa do exercício semanal, quando ia estudar e escrever minha prontidão aumentava. Passei a ler mais e a buscar o verdadeiro sentido de cada palavra, a querer dizer de forma mais verdadeira o que acredito. Afinal, é no texto que materializamos nosso pensamento”. Segundo Ângela, um dos principais pilares da Doutrina, que é o autoconhecimento, foi reavivado durante as atividades. “Cheguei à conclusão de que a forma como nos comportamos, como agimos, escrevem o que somos e o que pensamos”, finaliza.

O QUE É PRODUTO MEDIÚNICO?
É o produto cultural gerado a partir da interação entre os polissistemas material e espiritual. Apresenta forma, significado, uso e função definidos. Contém conhecimentos universais, alternativos, especialistas e individuais relativos às partes envolvidas. Possui traços culturais, pode constituir complexos culturais e faz parte de um padrão cultural relativo ao contexto no qual está sendo gerado. Pode ser um texto, uma fala, uma ideia, um conceito, sentimentos, emoções, gestos, comportamento, etc.
O produto mediúnico, como se constitui a partir da soma das partes envolvidas, supera a experiência, o conhecimento dos participantes. Como se constitui em algo novo para o contexto no qual foi gerado, o produto será difundido e Sofrerá integração cultural posterior, alterando a mentalidade do grupo.

PARA SABER
*ANIMISMO
O animismo, para a Doutrina Espírita, significa que o espírito encarnado pode operar, produzir efeitos, fenômenos, fatologias, sem o concurso dos espíritos desencarnados. Issoacontece, quando o indivíduo utiliza para tais fatos sua própria energia, que é produzida pelo seu conjunto celular (bioma), integrado à energia da natureza. Nesse processo não há perda de energia, quando o médium anímico faz perfeita integração da energia por ele produzida, com a energia produzida pelos outros sistemas de vida existentes na natureza, circunscrita à localidade onde ele vive. Tem-se como exemplo as benzedeiras, os pajés.

Fonte: Livro Antropologia Espírita, de Maury Rodrigues da Cruz.

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