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Sinto, logo existo

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Aprendendo a ser com o novo ser

Por Ana Rosa Rocha*

Somos o que pensamos ou o que sentimos? Em verdade, o que define uma pessoa é o que ela faz, como se comporta, seus posicionamentos e atitudes diante da vida e da sociedade. A esse ‘modo de ser’ Wilhem Reich, médico psicanalista austríaco, discípulo de Sigmund Freud e pai da psicoterapia corporal, definiu como Caráter. Como nos afirma o espírito Antônio Grimm: “Quem não age, não é. Atos formam a pessoa.”
Esse conjunto de características do indivíduo se forma desde a sua concepção até o final da infância, início da puberdade, que se dá por volta dos 12 anos de idade, quando o caráter se define. Toda a experiência de vida deste ser, portanto, será indubitavelmente registrada nas suas células, por meio dos seus sentidos, em cada etapa de sua vida, produzindo significações profundas de caráter biopsicofisiológicos, intelectivos, afetivos e espirituais.
Explica Volpi que “o corpo sente, aprende, se disciplina, se condiciona e toda vez que isso acontece, as células do cérebro sofrem uma alteração e essa alteração irá refletir em nosso comportamento.”

Fases
Segundo Reich, a primeira fase do desenvolvimento emocional que vivenciamos é a ocular, em que buscamos firmar a visão, fazer foco, enxergar com nitidez, fazer contato. Busca-se esse contato primal essencialmente com a mãe, ampliando, gradativamente, para os demais familiares. Nessa fase utilizamos os neurotransmissores nariz, olhos e ouvidos, para “enxergar”, buscando contato com o mundo que nos cerca. O sistema nervoso central se vale desses três sentidos para absorver o mundo. Essa fase se inicia no período intrauterino até os primeiros 10 dias de idade e, o contato saudável desse recém-nascido com o mundo vai depender da disponibilidade energética e emocional que ele experenciar desde sua concepção até o nascimento.
A segunda fase, a oral, tem como segmento a boca e se refere à amamentação que, adequada ao desenvolvimento emocional deveria ocorrer até mais ou menos o nono mês de vida, quando o bebê já com os dentinhos despontados, se mostra capaz de iniciar gradativamente a mastigação de sólidos. É esperado para essa fase o acolhimento e disponibilidade emocional da mãe para amamentar no peito (ou, se não for possível, na mamadeira) com a energia amorosa suficiente para este bebê sentir-se incorporando o mundo a sua volta por meio desta primeira e rica fonte nutritiva, no sentido físico e emocional.
Tão importante quanto amamentar é fazer o desmame adequado deste bebê, afinal, é um grande e valioso aprendizado conseguir triturar o próprio alimento, com os novos dentinhos que apareceram com uma vontade danada de morder. Portanto, o desmame neste período (perto dos 9 meses) acompanha a fase em que os dentinhos estão despontando com dor e função. Descarregar essa energia intensa que vem com essa revelação é essencial e só mamar neste momento não ajuda nesta questão! É momento, pois, de com vagar, paciência e amorosidade, ir desmamando o bebê (a própria mãe também precisa “desmamar-se” desta fase) e permitir que o pequenino descubra uma nova e maravilhosa função: mastigar! Dar conta de triturar o próprio alimento ao mesmo tempo que descobre algo que ele tem que fazer por ele mesmo representa uma grande conquista para o bebê.
Ah, mas era tão gostoso sugar aquele leitinho super nutritivo…Sem dúvida! Mas a vida é assim! Quando já se tem conquistado um aprendizado lá vem outro para nos desafiar, não é mesmo? E quão importante é se permitir aos novos desafios. Nesta fase, no entanto, somos nós, os adultos que devemos decidir pela criança e encaminhá-la de maneira menos traumática possível para o desenvolvimento de sua autonomia. Até esse período, a criança, sendo totalmente dependente do adulto, estará absorvendo, a todo instante, o que o adulto comunica com sua maneira de lidar com ela. Nessas primeiras fases se firmam a confiança ou desconfiança no outro e isto a acompanhará na sua fase adulta.
Neste mesmo período, notem, estamos estimulando esse bebê a falar, a se movimentar, ou seja, a se posicionar diante da vida. Importante isso? Considerando que na primeira infância (0 a 4 anos) é onde ocorrem os mais significativos e profundos aprendizados, se faz mister conhecermos e atentarmos para o desenvolvimento físico e emocional que está acontecendo com o bebê – concomitantemente! Importante esclarecer que todas as experiências de ordem física, sejam conquistas, aprendizados ou privações estarão adentrando ao psiquismo desta criança através dos seus órgãos dos sentidos.
Esta primeira fase da infância, que compreende o período em que a criança vivencia a anomia, ou seja, uma ausência de leis firmada na incapacidade de compreendê-las, está associada diretamente com o não controle dos esfíncteres, capacidade essa que será atribuída a um preparo fisiológico. No entanto, as consequências desse aprendizado refletirão enormemente nas suas emoções, pois com o  controle dos esfíncteres surge a autonomia e a consequente distinção entre o certo e o errado. (A criança vai sinalizar este momento). Hora de começar a trabalhar limites! Agora sim os pais e educadores poderão experimentar um sucesso diante do que esperam que a criança entenda: “isso pode! Isso não!!” Neste período estamos falando da terceira fase, a anal, em que a criança está experimentando o autocontrole, momento ótimo para compreender o “não” (isto irá acontecer por volta dos 2 anos de idade).
Portanto, é preciso respeitar o preparo fisiológico da criança para iniciarmos o treino ao banheiro e a instalação de limites. Antes disso é só tortura! O que gera grande angústia para a criança que se sente ameaçada, muitas vezes, caso não consiga segurar as fezes ou “oferecê-las” na hora em que não quer… sim, a criança quando defeca o faz em momento oportuno, quando se sente relaxada, portanto, só o fará na presença de pessoas que gosta e se sente à vontade.
Portanto, criar um ambiente favorável oportunizando que a natureza da criança, que está iniciando esta escola de sua nova vida, seja respeitada é fundamental para criarmos uma relação saudável com este novo ser que confia a nós toda a sua vida, seus aprendizados, seu desenvolvimento biopsiquicoespiritual.
É preciso coragem para abandonarmos as ideias requentadas (aqueles velhos hábitos repetidos há gerações) e olhar para o novo que está ali, na nossa frente, balbuciando sons e expressando livremente emoções que nos sinalizam qual o melhor caminho a se trilhar para oferecer a ele o amor, a proteção e o respeito por sua natureza, neste intenso e maravilhoso princípio de vida.

“Amor, trabalho e conhecimento são as fontes da nossa vida. Deveriam também governá-la” (Wilhem Reich)

 

*Ana Rosa Rocha – Licenciada em Educação Física com Especialização em Psicologia Corporal. Atua como Terapeuta Corporal (abordagem reichiana)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

A memória ancourada no corpo. VOLPI, J.H. Congresso de Psicoterapias Corporais, 2004

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