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Solidão: experiência de autoconhecimento

Solidão: experiência de autoconhecimento

 

Por Juliana Fischer de Almeida
Advogada Pública, licenciada em filosofia, Mestre e Doutoranda em Filosofia pela PUCPR. Atualmente, faz parte do Grupo de Pesquisa Instituições Políticas e Processo Legislativo, da Universidade Federal do Paraná

 

A SOLIDÃO COMO EXPERIÊNCIA DO CONHECER A SI MESMO: UMA LACÔNICA ABORDAGEM DOS DEVANEIOS DE UM CAMINHANTE SOLITÁRIO DE JEAN-JACQUES ROUSSEAU

O hábito de entrar em mim mesmo me faz perder enfim o sentimento e quase a lembrança de meus males; aprendi assim, por minha própria experiência, que a fonte da verdadeira felicidade está em nós e que não depende dos homens tornar verdadeiramente infeliz aquele que sabe querer ser feliz (ROUSSEAU, Devaneios de um caminhante solitário).

 

Jean-Jacques Rousseau, nasceu em 1712 e faleceu em 1778, foi um filósofo, musicista, botânico e escritor suíço. Participou do movimento intelectual do séc. XVIII chamado de Iluminismo, precursor do romantismo francês com a publicação de seu romance epistolar Julia ou Nova Heloísa e suas ideias políticas influenciaram a Revolução Francesa. A sua mais famosa obra denomina-se Contrato Social, todavia sobre a temática proposta será analisada a obra Os devaneios de um caminhante solitário. Esse terceiro texto autobiográfico de Rousseau, publicado em 1782, é o relato de dez caminhadas, na qual o filósofo busca incessantemente entender o motivo pelo qual se encontra só no mundo, seu objetivo, nesta autobiografia, é tentar entender-se.
Na Primeira Caminhada, o filósofo explica seu método “para fazê-lo com sucesso, seria necessário proceder com ordem e método: porém, sou incapaz deste trabalho, e mesmo ele me afastaria da minha finalidade, que é a de perceber as contínuas modificações de minha alma. Farei em mim, num certo sentido as operações feitas no ar pelos físicos, para conhecer seu estado diário. Aplicarei o barômetro à minha alma e essas operações, bem conduzidas e longamente repetidas, poder-me-iam fornecer resultados tão seguros quanto os seus. Mas não levo até a este ponto minha empresa. Contentar-me-ei em manter o registro das operações sem procurar reduzi-las a um sistema” (ROUSSEAU, 1995, p. 27).
A sua forma de entender a solidão, neste escrito em específico, é feito no sentido descrito nessa citação: seu ser será objeto de estudo, mas não o corpo físico, e sim sua consciência, a alma que reside dentro, com intuito de preservar sua própria moral. É o sentimento que temos dentro de nós que é responsável pela ligação do que somos com as coisas externas. O sentimento para a caracterização do “eu” não acontece de forma passiva, não é uma mera afecção, pois é uma fonte de origem que gera a capacidade de produzir uma impressão do mundo que nos cerca. A capacidade de julgar, ou o chamado comportamento teórico, não se faz suficiente, uma vez que somente pela lógica não se é possível compreender o pleno significado da existência. Contudo, o sentimento que funda a noção do “eu” é diferente daquele que nos faz conhecer o mundo externo.
A solidão faz com que ele se entregue “inteiramente à doçura da alma, já que é a única coisa que os homens não podem tirar” (ROUSSEAU,1995, p. 26). Nesse aspecto, é interessante observar que não é somente uma questão de sentir e vivenciar o viver só, mas é algo que pertence ao ser e é inalienável. Ou seja, ao se perceber isolado, o “eu” ganha outra dimensão, porquanto não está mais preocupado em diagnosticar os malefícios das paixões fictícias da sociedade, mas sim em caracterizar que, diante do mundo como é, o que lhe resta de mais nobre é sua existência.
O conhecimento de si acontece por meio de um exame de consciência revelada pela solidão, no qual o ato de sentir surge de uma só vez; é nesse instante que se tem a posse de si. Dessa forma, o conhecer-se e o sentir-se acabam se tornando a mesma coisa, tendo como condição obrigatória o isolamento. O recolhimento a si faz com que o mergulho na sua subjetividade propicie um movimento circular do “eu” para o “eu”.
A estrutura de uma consciência de se sentir só faz com que o indivíduo assuma uma autonomia e comece a se perceber. O conflito com o mundo e o sentimento promove uma reflexão e uma ruptura entre o real e o ideal, pois o ideal se resigna a existir de forma irreflexiva no real.
Nos Devaneios, a solidão é uma espécie de terapia: reencontrar e curar o “eu” desiludido com a vida social, porquanto a solidão faz com que a contemplação pelos sentimentos ressurja no coração do homem impossibilitado de viver em sociedade. Essa terapia acalenta uma alma à procura de paz para o “eu” que se recompõe para se amar. É um movimento que visa a expressar a concentração e a expansão de si, no seguinte sentido: na concentração, no retorno a si como um movimento de introspecção, o “eu” se expande para vivenciar as sensações mais puras que existem.
Assim, a solidão como experiência do conhecer a si mesmo é um importante movimento para que possamos desvelar em nós mesmos o sentido da vida, com a consciência de que pertencer a si é aquilo que nos torna o que somos e aquilo que seremos, num sublime mover-se para o ser-sendo.

 

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