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Sou um espírito ou tenho um espírito?

Sou um espírito ou tenho um espírito?

Publicado na SER Espírita impressa n.22

Por Mara Andrich

 

O espírito, como conceitua Allan Kardec, é “o princípio inteligente do Universo”. É, portanto, segundo o espírito orientador da SER Espírita, Antonio Grimm, o “autor e o portador da cultura”. Sim, é o espírito – e não o corpo – que pensa e que age. O corpo é apenas o instrumento de aprendizado e manifestação temporária do espírito aqui na Terra. Cada um de nós, espíritos, somos criados simples e ignorantes, mas inteligentes e livres para crescer, conforme vamos adquirindo conhecimentos. Crescemos tanto quando encarnados quanto quando desencarnados. Mas como, quando, para que e por que fomos criados? De que somos feitos? Para onde vamos após o desencarne?
Os espíritos são os protagonistas da codificação da Doutrina Espírita. Eles “ditaram” a Allan Kardec tudo o que hoje fundamenta o Espiritismo. Sem eles, O Livro dos Espíritos não teria sido escrito. Sem sua presença, o Universo não seria hoje como é.
Não se pode pensar que o espírito seja apenas o ser inteligente, apesar de este conceito já representar algo de grande valia. O espírito, ao longo de suas encarnações, adquire conhecimento, passa por experiências e, com o decorrer do tempo, vai se tornando cada vez mais experiente.
Como explica o professor de Teologia Comparada e coordenador de grupos de estudos espíritas, Mário Branco, neste processo o espírito também vai adquirindo cada vez mais consciência de si mesmo. “Assim, amplia-se o conceito de espírito: ele é o ser vivo inteligente e autoconsciente do Universo. É o ser que, a partir da capacidade de conhecer a si mesmo, pode conhecer os outros, a natureza, os mundos, o Universo, Deus”, observa.
Sendo assim, o diretor da Federação Espírita Brasileira (FEB), Geraldo Campetti, afirma que o espírito é a “obra prima do Creador”. A frase “a consciência dorme no mineral; desperta no vegetal; move-se no animal e pensa no ser humano” permite deduzir que toda a forma de vida um dia alcançará o estado de proto-espírito em seu estágio animal; e de espírito em seu estágio humano. Se haverá um estágio pós-humano, ainda não se sabe.
No estágio humano, já com capacidade de autoconhecimento e de tomar suas próprias decisões – e viver suas consequências –, o chamado livre-arbítrio, o espírito tem mais conhecimento e, portanto, mais responsabilidade. Sempre há evolução. “Nunca vamos parar de aprender, pois o progresso intelectual antecede o progresso moral e sempre haverá algo de novo a descobrir e realizar na infinitude do conhecimento e na plenitude da moralidade”, afirma Campetti.
Como lembra o professor Mário, o espírito não deve a sua existência a si mesmo. “Deve a algo além dele mesmo, a uma causa, à Causa Primeira, uma ação inteligente, com sentido e significado, a inteligência suprema”.

 

Início, meio e fim

Nem o codificador da Doutrina Espírita, Allan Kardec, soube precisar qual teria sido o momento exato da criação do primeiro espírito. Chama, inclusive, isso de “mistério”, e vai além, afirmando que “não tivemos princípio, se entenderes com isso que, sendo Deus eterno, tem criado sem descanso; mas quando e como ele criou cada um de nós, digo-te, ainda, ninguém o sabe”. O professor Mário Branco ressalta a ampliação de consciência, a evolução dos seres, e acredita que não deve haver um momento inicial pré-estabelecido. “A origem é um processo gradativo de ampliação de consciência e inteligência, e não um momento único ou súbito”, orienta.
Já na opinião de Geraldo Campetti, Deus sempre criou espíritos, incessantemente, e que nossas possibilidades de entendimento ainda não alcançam a informação de quando teria iniciado a criação. “A relatividade do tempo diz respeito a nós, e não ao Criador. Passado, presente e futuro, como os entendemos, são estados e perspectivas que nos orientam, mas que não condicionam os seres que nos são superiores. Assim como Deus criou sempre, cria desde o sempre, igualmente continuará sempre a criar. Poderíamos cogitar que a razão da existência do Criador é a sua própria criação”, discute.
Assim como Kardec não definiu a origem, também não se sabe o fim dos espíritos, ou seja, quando Deus pararia de os criar. Outra incógnita para reflexão.

 

Do que somos feitos?
Não se sabe, ao certo, do que é composto o espírito quando desencarnado. Kardec explicou que os espíritos são imateriais. E refletiu: “Como se pode definir uma coisa, quando faltam termos de comparação e com uma linguagem insuficiente?”.
Nos dias de hoje, recontextualizando a obra e com informações de espíritos orientadores, é possível fazer algumas suposições a respeito da composição do espírito desencarnado. Segundo o professor Mário Branco, trata-se de uma substância não física, pois não é matéria ou energia, e nem está limitada às dimensões do espaço.
O que já se sabe, como lembra Campetti, é que o espírito utiliza o perispírito, que seria uma espécie de “corpo espiritual” fluídico, mais leve do que o corpo material, que tem a finalidade de tornar o espírito reconhecível e identificável aos encarnados. O perispírito permite, ainda, como explica Mário Branco, a troca de informações entre espírito e o meio material.
Antonio Grimm faz algumas considerações. Ele já chegou à conclusão de que o espírito teria uma composição ainda desconhecida, e que o perispírito seria uma energia, e a parte mais densa do perispírito – o duplo etéreo – seria semimatéria. O corpo, por fim, seria a matéria. Mas, recentemente, Grimm afirmou que o duplo etéreo não existe e a classificação, portanto, volta a ficar assim: espírito, perispírito e corpo físico.
Mário Branco lembra, porém, que o termo “semimatéria” também é uma incógnita. “Seria a matéria apenas mais sutil, menos densa? Ou algum tipo diferenciado de matéria, mas ainda assim, matéria? Um tipo novo de substância, ainda não conhecido? Também não é mais fácil dizer que é energia, pois se usa energia de uma forma diferente do que é usado em física”, questiona o professor.
Por meio do perispírito, o espírito desencarnado, segundo Kardec, se apresenta aos seres encarnados da forma que deseja.

 

Para onde vamos ?
Uma das grandes dúvidas de quem está encarnado é para onde vai depois do desencarne. Após o desligamento do corpo, o espírito retorna ao mundo espiritual, “que é o nosso mundo real e permanente”, como observa Campetti.
Como mostraram as reflexões de André Luiz no livro Nosso Lar – psicografado por Chico Xavier – há mundos mais ou menos evoluídos. E cada espírito tomará seu rumo conforme suas obras na Terra. No entanto, sabe-se que a linguagem figurada usada na década de 1940, quando foi escrito o livro, deve ser recontextualizada nos dias de hoje. Já se sabe que os espíritos, sejam encarnados ou não, se ligam e se identificam por frequência. Sendo assim, o “umbral”, tratado na obra como um local de sofrimento e escuridão, seria apenas um estado de consciência, e não um local físico determinado. “Os espíritos se associam em função de seus valores e identidade, desenvolvem projetos, realizam funções, desempenham tarefas em função de seus objetivos e os de seu grupo imediato de afinidade”, lembra o professor de Teologia Comparada, Mário Branco.
“Por isso, é importante que tenhamos uma vida saudável, equilibrada, cultivando os valores morais, éticos e praticando o bem ao semelhante para que sejamos felizes do outro lado da vida. Caso contrário, ainda permaneceremos vinculados aos grilhões, presos às questões materiais e preocupações terrenas”, alerta Campetti.

A comunicação mediúnica não é tão fácil quanto se imagina
Transitar pela Terra, na condição de espírito desencarnado, não é tão fácil como dita o senso comum. Sabe-se que as características do espírito encarnado ou desencarnado são totalmente diferentes. Ou seja: há a necessidade de uma “roupa” adequada para ele estar tanto no polissistema espiritual quanto no material. “Feito o desencarne, ele sai da frequência material e retorna a sua frequência ou densidade natural, que é a espiritual”, explica o professor de Teologia Comparada, Mário Branco. Ele explica ainda que voltar ao plano terreno demanda especialistas – médiuns que sirvam de “instrumento” para tanto –, consumo de energia e, principalmente, objetivos específicos para desempenhar tarefas específicas.
Portanto, espíritos desencarnados não vêm à Terra quando e como bem entendem. Não fazem o que querem e na hora que querem. Quem leu o livro Nosso Lar ou viu o filme de mesmo nome lembrará quantos anos André Luiz teve que aguardar para visitar seu próprio lar após seu desencarne.
O diretor da Federação Espírita Brasileira (FEB), Geraldo Campetti, explica que os espíritos podem vir ao polissistema material quando estiverem preparados. Mas não podem ficar andando por aí ao Deus dará. “Eles podem ‘voar’, sem necessidade de asas. Isso se dá pela leveza do perispírito e pela força do pensamento e da vontade do agente. O espírito ‘sopra’ onde quiser, diz o ditado bíblico. Mas nem todos têm liberdade total para fazer o que bem entenderem e deslocar-se para qualquer lugar. Pois essa liberdade é relativa ao grau de adiantamento moral e intelectual de cada um. Alguns têm permissão para acessar determinados ambientes, outros não. Isso é decorrente da sintonia que se estabelece entre os seres.”
Outra pergunta frequente é se os espíritos desencarnados podem nos ajudar. Importante lembrar aqui que todos nós somos espíritos. Sendo assim, ao desencarnar, o espírito continua com seu “acervo”, com seu conhecimento acumulado enquanto encarnado, seus valores, sua condição moral etc. “Quando nos referimos a um espírito orientador, estamos falando que, pela qualidade e quantidade de seu acervo, ele é capaz de orientar os que ainda não detêm conhecimento em um ou em vários segmentos, não importando se está ou não encarnado”, esclarece. Sendo assim, a ajuda mútua entre espíritos depende de seu alcance e de sua vontade. “A ajuda presencial pode ocorrer, mas não é lugar comum. É mais fácil um espírito encarnado ajudar outro encarnado”, opina. Essa ajuda – seja entre encarnados ou desencarnados – não precisa ser presencial: ela depende da frequência de pensamento, da prece e da rede de mentalidade formada no Universo.

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