[kads group="topo-1"]


Ter ou ser?

Ter ou ser?

Qual o caminho para a evolução do espírito?

Por Flavia Zanforlim e Ana Paula Freitas – publicado na SER Espírita impressa n.15

A vida na Terra é muito mais do que a busca do acúmulo material para o consumo. Quem procura conseguir o maior número de bens materiais certamente caminhará para o encontro de dificuldades espirituais, uma vez que se torna cada vez mais difícil acumular dons espirituais que lhe renovem o ser. Tudo que se planta no plano terrestre torna-se reflexo daquilo do que se irá colher no plano espiritual. Daí a importância de saber buscar meios para progredir pensando no futuro, ao invés de buscar apenas satisfazer as necessidades momentâneas.
O antropólogo, professor universitário e coordenador de grupos de estudos espíritas de Curitiba (PR), Airton Laufer, explica que o “ser” está ligado diretamente à pessoa, ao indivíduo, ao espírito encarnado e desencarnado, ao aspecto intrínseco, ao substrato do ser como essência, e conclui com isto que o “ser é sempre maior do que o ‘ter’”. Já o “ter” do consumo busca realizar as necessidades materiais, em detrimento das necessidades espirituais, não permitindo que o espírito encarnado enxergue até que ponto isto pode prejudicar e frear a sua própria evolução.
Laufer esclarece que o “ter” não é algo que possa ser considerado sempre negativo, mas precisa sempre ser reavaliado, pois, em si, “representa aquilo que é extrínseco, que está fora, são todas as coisas, normalmente, materiais, objetos, artefatos, de um sapato, a um avião, por exemplo, que atendem às necessidades mais básicas do homem na Terra, mas que, no fundo, nunca chegarão a satisfazê-lo”.
Nesta época de consumismo, com inúmeros apelos aquisitivos que isto representa, ter algo adquiriu uma importância desmedida e desproporcional. Tal valor compartilhado pela sociedade “faz parte da cultura materialista da Terra”, afirma o antropólogo. Ele explica que a condição de posse e propriedade desregulada já tem criado para algumas pessoas “a falsa ideia de que somos donos de alguém, de que alguém de carne, osso, espírito, nos pertence, e isto tem provocado grandes tragédias na sociedade atual”.
A maioria das coisas que as pessoas veem e ouvem contribuem para fortalecer este consumismo desenfreado, ao invés de impulsioná-las para a doação do “ser”. “Hoje o discurso em torno do ‘ser’ em detrimento do ‘ter’ é muito forte. Entretanto, as pessoas continuam priorizando o ‘ter’. Isto acontece porque um conjunto muito grande de referências sociais criam no indivíduo a predisposição para o ‘ter’. Tudo no nosso espaço aberto é uma mensagem”, analisa o sociólogo e teólogo espírita Guilherme Knopak. Laufer ressalta que as pessoas devem sempre se colocar na condição de aprendiz e de educador, e que os espíritas têm grande responsabilidade nisto. “O espírita deve sensibilizar as pessoas para que sejam mais felizes, vivendo a dimensão da vida espiritual”, reforça. Para ele, “a vida na Terra é muito boa, desde, que o indivíduo aprenda a separar o joio do trigo, vivendo a força do bem, da verdade, da caridade e do amor”.
Mas é preciso entender que não importa o número de mensagens que levem as pessoas a escolher pelo “ter” ao invés do “ser”. O ponto de partida de todas as tendências positivas ou negativas é sempre o indivíduo, não a sociedade. “Para ser, é preciso estar, por exemplo, presente em tudo que pensa, sente, fala e faz, não como a medida, mas, como a resposta para todas as suas indagações”, avalia Laufer.
Sendo assim, a sociedade não deve ser a desculpa para tais ações, pois a construção deste todo nada mais é do que o somatório das mentalidades individuais. O “ter”, que é alimentado pelo consumismo, evoca um problema ao indivíduo quando este deixa de enxergar o mundo como um lugar de passagem, criando uma identidade frágil, postiça e passível de aviltamento. Para Knopak, quando o indivíduo se deixa levar pelo ‘status’ dos símbolos e valores da matéria, priorizando o ter, ele se permite manipular. “Seguindo modelos culturais prontos que na maioria das vezes não dizem respeito à construção do seu ser. Ele passa a ficar mais parecido com o que a sociedade de consumo impõe e menos parecido consigo mesmo”, analisa.

Obstrução do ser
O ter em excesso, e principalmente os apegos aos objetos de posse, obstrui o ser e pode causar a infelicidade, pois se torna um prazer momentâneo, que logo se transforma em tédio e saturação. Mas isso não quer dizer que a pessoa deva viver sem bens materiais. Os bens materiais se fazem necessários, mas na medida em que promovam uma qualidade de vida, sem excessos ou desperdícios, e uma boa educação, para uso consciente de tudo que for conquistado.
Da mesma forma, priorizar o “ser” é ter consciência de que as pessoas não vivem para a satisfação pessoal, sozinhas, sem propósitos. Viver é uma arte e saber ser alguém em busca de um progresso social demanda um estado espiritual de desprendimento, no qual todos são levados a pensar em que trabalha o espírito, e não no que trabalha o material.
É importante avaliar que a ânsia de ter é tão forte que até mesmo os sentimentos subjetivos deixam de ser uma ação da alma para se tornarem uma posse. Quando sentimos algo, costumamos dizer: “temos amor”, ou “temos ódio”. Ou alguém diz “tenho ciúmes” em vez de dizer “sinto ciúmes”. Até que ponto o “ter” do consumo se enraizou na sociedade, obstruindo o ser do progresso espiritual?

“Não se pode servir a Deus e a Mamon”*
Laufer lembra que o homem da sociedade pós-moderna do século XXI vive em constante conflito entre o “ser” o “ter”. Isto acontece, segundo sua avaliação, porque as pessoas ainda não entenderam que a única coisa que pode trazer felicidade ao ser humano na Terra é o que se alcança de dentro para fora, como o amor, por exemplo. O espírito Leocádio José Correia, um dos orientadores da SER Espírita, em mensagens psicografadas pelo médium Maury Rodrigues da Cruz, afirma que “o amor e a felicidade são como uma porta que se abre para fora”.
Laufer avalia que a questão do amor e da felicidade devem ser amplamente discutidas nos espaços espíritas. “Os espíritas devem ser verdadeiros bandeirantes da vida espiritual na Terra, ensinando que se todos souberem viver de forma sustentável, aprendendo a conjugar as suas necessidades interiores com as exteriores, respeitando, valorizando, promovendo o homem, a natureza e a vida, será muito mais feliz”, afirma.
Usar os recursos disponíveis de maneira sensata contribui para a realização de obras grandiosas e, por consequência, também promove a evolução do espírito. Dessa forma, o ter pode até ser considerado um elemento para promover o ser, desde que esta atitude não se torne maior do que o seu propósito. “É necessário compreender que os bens materiais estão dispostos para o nosso crescimento, e só com a utilização parcimoniosa deles que podemos refletir em nossas posses e ações os valores do nosso ser”, enfatiza o teólogo espírita. E só faremos isto quando aprendermos a “a conjugar o mundo interior com o mundo exterior, o mundo material com o mundo espiritual, o corpo com o espírito, a matéria e a alma, o mundo natural com o mundo cultural, num sentido de equilíbrio, sustentabilidade”. Enquanto for possível distinguir o ter do ser, é possível promover o progresso do espírito mais que o consumo da matéria.

*trecho de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec (capítulo XVI)

 

Compartilhe: