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Uma questão de fé

Tratar de fé é assunto dos mais complexos, já que cada um de nós a concebe de uma maneira, de acordo com sua cultura, suas experiências, suas vivências, seu conjunto de valores e seu alcance possível.

Grande parte das desavenças ocorridas em torno da fé ao longo da história da humanidade deu-se justamente em virtude da tentativa de imposição de uma fé dogmática e presunçosa, baseada no orgulho, na vaidade e em falácias, sustentadas unicamente através do medo e de ameaças, quando, na verdade, deve a fé se basear na humildade, e em um processo aberto de busca racional pelo Creador.

Em virtude de nossa herança cultural, o vocábulo ‘fé’ costuma ser associado ao conceito de ‘crença’, sendo este, quiçá, um dos principais elementos causadores de tanta discórdia sobre esse tema.

O dicionário Aurélio aponta, entre outras, a seguinte definição de fé: ‘conjunto de dogmas e doutrinas que constituem um culto’. Tal definição, de fato, subsume-se exclusivamente ao conceito de ‘crença’, e contempla apenas elementos exteriores, que nada tem a ver com a ligação existente entre o ser humano e o Creador, sendo, pois, absolutamente lacônica e insatisfatória.

Enquanto a ‘crença’ trata de mera opinião, algo incerto, indefinido (como quando alguém diz: ‘creio que meu time é o melhor’), a fé, que deriva da raiz latina fides, tem a mesma origem etimológica do que o vocábulo ‘fidelidade’, e há que ser compreendida justamente nesse sentido de harmonia, de sintonia.

Como bem exemplifica Huberto Rohden, “Quando o meu aparelho de rádio está sintonizado com a onda eletrônica emitida pela estação emissora, então meu rádio apanha nitidamente a música irradiada pela emissora – meu rádio tem ‘fé’, fidelidade, alta fidelidade com a estação emissora. Mas quando o meu aparelho receptor não está afinado pela mesma freqüência vibratória da emissora, não apanha a música, porque não tem ‘fé’, fidelidade, sintonia.”[1]

O mesmo autor segue esclarecendo a razão de muitas vezes utilizarmos o vago termo ‘crença’, quando na verdade estamos tratando de ‘fé’. Segundo ele, o substantivo latino fides não encontra verbo correspondente, da mesma forma que o substantivo fé, o que levou os primeiros tradutores do evangelho (que como sabemos foi inicialmente escrito em grego) a utilizar o termo latino credere como equivalente, e nos leva a tratar ‘fé’ e ‘crença’ como sinônimos, em que pese serem termos bastante distintos.

De fato, se buscarmos compreender a fé como uma sintonia com Deus, nosso Creador, sua compreensão e assimilação se tornam muito mais facilitadas. Valendo-nos do pertinente exemplo do rádio, torna-se fácil percebermos que nossa compreensão de Deus será tanto melhor, quanto maior for a sintonia que consigamos fazer com o Creador. Por outro lado, essa sintonia pode sofrer uma série de interferências, as quais surgem das mais variadas formas em nosso dia a dia, e têm como grande propulsor o materialismo exacerbado. Cabe a cada um de nós buscar depurar-se a fim de que essa sintonia se dê da forma mais fidedigna possível.

Essa freqüência com a divindade não se dá, por evidente, através de dogmas aceitos sem exame, ou de imposições, devendo, necessariamente, ocorrer por meio de deduções lógicas e racionais, somadas à certeza que cada um de nós tem da existência desse plano superior.

A verdadeira fé encontra-se, justamente nessa convicção que nos anima e nos desperta para os ideais elevados[2], e baseia-se na razão, no discernimento e na compreensão, enquanto a fé cega, baseada em dogmas muitas vezes ilógicos, acaba por conduzir ao fanatismo.

Em que pese afirmarmos a necessidade de uma fé congruente e raciocinada, como forma de atingir seu verdadeiro significado, não podemos olvidar que a fé não pode ser compreendida de forma simplesmente teórica e estática, devendo, pois, ser vivida, para que possa ser alcançada em sua plenitude.

O alcance da verdadeira fé se faz, pois, essencialmente através da busca pelo autoconhecimento, eis que é através de tal prática que o indivíduo poderá fazer a gradativa compreensão da dinâmica existencial, bem como do papel que deve desempenhar no trânsito da Terra. A fé não deve nunca ser imposta ou prescrita, mas construída de dentro para fora, cabendo, a cada um a tarefa de procurar compreendê-la e aflorá-la.

 

[1] ROHDEN, Huberto. Sabedoria das Parábolas. São Paulo: Martin Claret, 2007. p.128.

[2] DENIS, Leon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, 2008. p.349.

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Sobre o Autor

Rodrigo Fontana França

Rodrigo Fontana FrançaAdvogado e Coordenador de Grupos de Estudos Espíritas na Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (SBEE) e no Centro Espírita Antonio Grimm (CEAG)

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