[kads group="topo-1"]


Vida após a vida

Vida após a vida

Por Mara Andrich, publicado na SER Espírita impressa n. 19

Uma pesquisa do Laboratório de Estudos de Desenvolvimento da Universidade de Harvard indicou que os bebês já nascem sabendo. De acordo com o laboratório da pesquisadora Elizabeth Spelke, os bebês em geral sabem, antes de completarem um ano de idade, o que é um objeto: uma unidade física distinta, em que todas as partes se movem mais ou menos como uma só e com alguma independência dos outros objetos.
A Doutrina Espírita entende, desde a codificação feita por Allan Kardec, que os espíritos já encarnam com o conhecimento adquirido nas vidas passadas e, assim como a encarnação tem um período médio, há também um período médio entre encarnações. Mas o que acontece durante este intervalo?
O que ocorre logo após o desencarne é uma das grandes curiosidades dos seres humanos. Tanto que a maior parte tem medo de morrer – ou desencarnar, no termo espírita – porque não sabe o que virá, tem receio do desconhecido. No entanto, como dizem os espíritos orientadores da SER Espírita, o desencarne não é tão assustador. Pelo contrário. Seria uma continuidade do aprendizado conseguido enquanto encarnado – seja na Terra ou em outro polissistema material – com um objetivo dignificador: a evolução.
É de conhecimento geral que todos estamos na ‘fila do desencarne’ e que é preciso aceitá-lo como algo natural, necessário e primordial para a evolução. Desencarnar e aprender do ‘lado de lá’ é tão necessário para a evolução quanto encarnar e aprender do ‘lado de cá’.
Mas, afinal, o que os espíritos trazem de informações aos encarnados em relação ao pós-desencarne? Primeiramente, o que já se sabe é que ninguém fica “largado” depois do desligamento do corpo físico, como diz a coordenadora de estudos espíritas Vanilza Suhevits. Segundo ela, todos os espíritos, ao desencarnarem, são recepcionados por outros, desencarnados, que têm a mesma afinidade. “Quando desencarna, o espírito vai para uma frequência semelhante a sua. Sempre haverá espíritos dispostos a recepcionar aqueles que estão chegando”, afirma. A predisposição dos espíritos é uma das características do polissistema espiritual. Segundo ela, sempre haverá espíritos mais ou menos espiritualizados, que têm um maior ou menor entendimento.
O teólogo espírita Waldomiro Koialanskas afirma que neste processo de recepção – e também após – sempre, seja encarnado ou desencarnado, o espírito deve respeitar o livre-arbítrio do outro. Principalmente, os ‘recepcionistas’ do polissistema espiritual.
Deve orientar, auxiliar, mas sem interferir nas decisões do outro. “Devem usar toda a extraordinária dose de paciência e caridade que conseguiram acumular em seus estudos”, lembra. E as dificuldades ou facilidades não são tão diferentes daquelas do polissistema material. “É a mesma diferença entre receber uma visita alegre, esperançosa e cheia de vida e um macambuzio que adentra o espaço para reclamar de tudo ou falar apenas de suas decepções, amarguras, frustrações e doenças”, compara. Lembrando que todos os espíritos jamais perdem a individualidade, como afirma.
Allan Kardec na obra O Livro dos Espíritos. No filme “Nosso Lar” – baseado no livro Nosso Lar, de André Luiz, psicografado pelo médium Chico Xavier – cenas marcantes mostram os espíritos recebendo atendimento em locais semelhantes a hospitais. “Estes locais existem para que os espíritos façam o seu reequilíbrio – se necessário – e relembrem de se comunicar pelo pensamento, como se locomover sem usar as pernas etc.”, comenta Vanilza. Ela explica ainda que os menos evoluídos podem demorar algum tempo para estar cientes do desencarne; já os mais evoluídos tomam esta consciência com mais rapidez e já são encaminhados para atividades de trabalho e estudo coerentes com suas capacidades.
O diretor da Federação Espírita Brasileira (FEB), Geraldo Campetti, lembra-se da importância do entendimento de que os espíritos nunca perdem sua individualidade, ou seja, “somos nós mesmos do outro lado da vida”, mas que o mundo espiritual “é a nossa verdadeira pátria”. Ele lembra que no mundo espiritual é possível que os espíritos sejam recebidos por familiares, amigos e espíritos protetores. Ele compartilha da opinião de Vanilza, afirmando que a frequência determina quem recebe os desencarnados. “Estamos sintonizados com aqueles que se assemelham conosco em gostos, costumes, comportamentos e ideias. Na lei divina não há privilégios. A situação do espírito quando desencarnado é consequência do que ele fez ou deixou de fazer na existência física. A cada um será dado segundo suas obras”, reforça.
O espírito Leocádio José Correia, um dos orientadores da SER Espírita, por meio de psicografias e psicofonias do médium Maury Rodrigues da Cruz, explica que o processo de desencarne é impactante, independentemente da religião. Ele se lembra dos ‘hospitais’ para onde os desencarnados são levados e que o tempo para que o espírito desencarnado entenda o que está acontecendo varia muito. “Sendo um desencarne natural, o espírito que teve uma vida proveitosa, em que fez registros de suas diversas experiências, boas ou más, mas conscientemente soube administrá-las, dentro de dez ou 15 dias (isso é muito relativo, depende de cada criatura, da sua possibilidade consciencial e de autoconhecimento) recobra plenamente suas funções”.

COMUNICAÇÃO E TRANSPORTE
Como lembra Campetti, a vida no mundo espiritual é bastante “movimentada”, dinâmica. Ninguém fica parado por lá. A comunicação e os movimentos que ocorrem ‘do lado de lá’, no entanto, não acontecem como aqui na Terra. Com o desencarne, os espíritos perdem o corpo físico. E, como explica Kardec, os espíritos desencarnados ainda carregam um fluido que mostra como é a sua individualidade, sua aparência, chamado de perispírito. Sem corpo, não há como andar ou correr como fazemos por aqui. Segundo Vanilza, há alguns desencarnados, conforme seu nível de evolução, que podem continuar acreditando que sentem fome e sede e que precisam andar, falar e se locomover, como faziam no meio material. Estes, explica ela, na medida em que vão estudando, adquirindo conhecimentos com os espíritos mais evoluídos, percebem que já não têm mais estas necessidades. “Estas necessidades não existem pela constituição fisiológica do espírito e perispírito”, observa.
Os espíritos se comunicam, é claro, mas pelo pensamento. A movimentação e o transporte não se dão como no meio material, pois o corpo já não existe mais. Koialanskas observa que o pensamento é só uma das maneiras de comunicação e transporte. O que ocorre no polissistema material. “Aqui conseguimos o deslocamento em um sistema aquático, por exemplo. Por que não haveria nos polissistemas espirituais? Deve existir a liberdade de deslocamento e extensões possíveis de serem atingidas, limitada ao progresso de cada um”, comenta. Campetti, por sua vez, explica que à medida que o espírito evolui passa a ter a possibilidade de acessar meios de transporte com mais tecnologia, por exemplo. O espírito Correia lembra ainda que o aprendizado de como se alimentar e se movimentar, por exemplo, é conseguido com o tempo. “É um treinamento”, observa.
O filme “Ghost – Do Outro Lado da Vida”, da década de 1990, mostra a história de um homem que desencarna em um acidente de trânsito e tem dificuldade para entender. Ao desencarnar, o homem vê uma espécie de filme de toda a sua vida. Segundo o espírito Correia, isso ocorre para que a pessoa faça um exame de consciência. “O espírito reage porque ele não gosta de lembrar práticas ruins, principalmente depois que já fez um reciclo de vida e, por vezes, até já pediu perdão a quem ele prejudicou. No entanto, aquele comportamento só é eliminado quando ele estiver plenamente consciente de que não conseguirá mais repeti-lo por que seus valores mudaram”, salienta Vanilza lembra que este é um momento muito importante, pois depois dele muitos espíritos se sensibilizam e sentem remorso pelas escolhas feitas, e também pelas omissões. “Mas aqueles que estão cientes do processo reencarnatório sabem que terão que melhorar e já pensam em estudar e buscar aprendizados nas próximas reencarnações que permitam não incorrer nos mesmos erros”, avalia.

VOLTA
A ideia de que desta vida nada se leva é real. Segundo Kardec, em O Livro dos Espíritos, a alma não leva nada deste mundo, “senão a lembrança e o desejo de ir para um mundo melhor. Essa lembrança é cheia de doçura e/ou amargura, segundo o emprego que fez da sua recente encarnação”. Para o retorno ao polissistema material – o reencarne – existe um preparo. Em geral, o
reencarne tem acontecido em um intervalo de 80 anos, segundo informações do espírito orientador da SER Espírita, Antonio Grimm.
Período que vem aumentando nos últimos anos já que o tempo entre as reencarnações depende da média de vida dos encarnados. “Não é uma regra fixa, pois os encarnados estão vivendo mais, então, consequentemente, este tempo pode aumentar”, opina Koialanskas.
O teólogo afirma que este preparo acontece em “ambientes de sabedoria”. Ele compara aos preparativos de uma viagem: quando a pessoa vai sair de férias, por exemplo, pesquisa sobre os costumes e tradições do local para onde vai viajar, o tipo de hospedagem, a alimentação mais comum na região, o clima, os pontos turísticos etc. “Então, porque as pessoas não se
preocupariam em fazer o mesmo com a viagem mais importante da etapa atual?”, questiona.
Vanilza, por sua vez, analisa que, se o tempo for menor do que 80 anos, haveria o risco de um reencontro no polissistema espiritual, o que, em algumas circunstâncias não seria recomendável. “Tais espíritos poderiam sofrer um desequilíbrio tão grande que poderia comprometer a reencarnação atual”, comenta. Sendo assim, a estudiosa aponta que, antes de reencarnar, os espíritos fazem um plano.
Neste projeto se encontram as necessidades de aprendizado do reencarnante que sejam mais urgentes para o seu progresso e também aquilo que o auxiliaria a colaborar com o desenvolvimento social da humanidade. “Após a elaboração deste plano, o espírito estará pronto para fazer a sintonia de frequências com os pais mais adequados, a mentalidade local, regional, continental etc., considerando a importância de cada aprendizado citado no plano, ou seja, existirão aprendizados que são primordiais para o espírito na próxima reencarnação”, explica.
Já Campetti, da FEB, diz que este intervalo é muito relativo. Para ele, alguns demoram mais tempo, outros menos, mas que não há uma regra absoluta para esta informação. E a volta, segundo ele, depende do livre-arbítrio de cada um, já que muitos espíritos podem escolher a situação em que irão reencarnar, que seria mais adequada para a evolução de cada um.

A MORTE EM DIVERSAS CIVILIZAÇÕES

REINO DOS MORTOS

A ideia de vida após a morte era importante para os egípcios antigos. Eles acreditavam que, quando o corpo morria, partes da alma – conhecidas como ‘ka’ (corpo duplo) e ‘ba’ (personalidade) iam para o “Reino dos Mortos”. Para eles, o deus egípcio Osíris cobrava pagamento para “proteger” a alma. E as estátuas usadas nos túmulos tinham a função de “substituir” aqueles que já tinham morrido.

LIVRO DOS MORTOS

Também no Egito Antigo, o Livro dos Mortos trazia senhas e fórmulas para serem usadas no pós-morte. Por exemplo, o coração da pessoa falecida era pesado e o peso era comparado com o de uma pena, relacionada à verdade e à justiça. Se o coração pesasse menos que a pena, a alma poderia continuar sua trajetória, se fosse mais pesado, seria “devorada pelo deus Sobek”. O Livro dos Mortos era colocado na tumba, para auxiliar nos “perigos” do pós-morte.

MÚMIAS
Os egípcios também acreditavam que a mumificação seria a única maneira de garantir a “passagem para o outro mundo

ODISSÉIA

Na Odisseia, de Homero, os mortos são tratados como “espectros consumidos” e uma vida após a morte – chamada de “ultravida” está prevista nos Campos Elísios. Mas somente para os descendentes mortais de Zeus.

PITÁGORAS E PLATÃO

Platão falava, na obra Mito de Er, que as almas eram julgadas logo após a
morte. Iriam para o “céu” caso merecessem recompensa e para o “submundo”
se tivessem que ser punidas. A reencarnação também aparece nos
ensinamentos de Platão. Segundo ele, só depois do julgamento – e de pagarem por determinados atos falhos – é que as almas reencarnariam. Tanto Platão quanto o grego Pitágoras defenderam a ideia da reencarnação.

ROMANOS
Os romanos também acreditavam em vida após a morte. Para eles, o príncipe Enéas, que fundou a nação que mais tarde se tornaria Roma, visitou o “submundo”. Isso está retratado no poema épico Eneida, escrito por Virgílio, no século I antes de Cristo.

GREGOS

Os gregos também acreditavam no “submundo”, para onde iriam as almas após a morte. Eles acreditavam ainda que se o funeral não fosse realizado o espírito nunca poderia chegar ao submundo e permaneceria “assombrando”. Os gregos tinham a ideia de que existem vários reinos, para onde as almas poderiam ser encaminhadas após a morte – locais agradáveis ou desagradáveis. A peça grega “Antígona” traz a visão da vida após a vida daquela época.

Compartilhe: