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Você tem medo de quê?

Você tem medo de quê?

Os medos podem até ser saudáveis na medida em que protegem. Mas podem ser muito graves quando paralisam para a vida

Por Mara Andrich – Publicado na SER Espírita impressa n.14

O espírito Leocádio José Correia (um dos orientadores do portal SER Espírita), em mensagens psicografadas e psicofonadas pelo médium Maury Rodrigues da Cruz, afirma que o ser humano “não deve ter medo de nada”. A lógica desta afirmação está em uma das conseqüências de sentir medo: a paralisação diante dos desafios da vida e a consequente desaceleração do processo evolutivo, para o qual todos os seres vieram a Terra. No entanto, todos sabem que não é nada fácil fazer enfrentamento dos medos que aparecem no cotidiano, que não são poucos: medo do desencarne, medo de perder alguém, medo de dirigir, medo da violência e da criminalidade, medo de elevador, medo de altura, medo de ir ao médico, medo da rejeição.
De acordo com a terapeuta relacional sistêmica, Mara Cristina Moro Daldin, o medo “é um impulso, uma ação impensada de algo que nos ameaça”. Segundo ela, o medo é natural, pois é inerente ao ser humano. Mas começa a ficar preocupante quando as pessoas começam a paralisar suas atividades cotidianas em função dele. Por exemplo: a pessoa não vai mais ao supermercado porque um dia foi assaltada nele. Ou então, não vai ao médico porque já teve uma doença grave. Na avaliação de Mara, tudo isso é reflexo da falta de capacidade do ser humano de acreditar em si mesmo. “Se acreditássemos que podemos enfrentar qualquer situação, não teríamos medo de nada. Mas isso é impossível – ou muito difícil – diante de tantas ameaças e perigos que constantemente assolam nossas vidas, gerando susto, apreensão e inibição”, observa.
Os especialistas se dividem quando a questão é: sentir medo pode ser saudável em algum momento? Para alguns psicólogos e médicos, certos medos podem ser saudáveis se mantidos dentro dos limites, já que assim fazem com que as pessoas evitem determinadas situações de risco. Mas é
Preciso ficar atento quando o medo paralisa e impede o curso natural da vida. Nestes casos, o mais recomendável é buscar ajuda de especialistas, pois há tratamento. A psicóloga do Centro de Psicologia Especializado em Medos (CPEM), de Curitiba (PR), Neuza Corassa, lembra da importância do medo, pois ele revela o instinto humano da autopreservação. Lembrando do homem das cavernas: se ele não sentisse medo dos animais ferozes, a espécie humana não teria sobrevivido. Desta forma, segundo Neuza, o medo funciona como um sinalizador, mas as pessoas devem fazer o enfrentamento dele. “Por exemplo: se tenho medo de ser assaltada à noite, então eu saio de casa tomando as devidas precauções. Assim, faço o enfrentamento do medo do assalto”, exemplifica.
Desta forma, o medo não vai crescer e, naturalmente, não vai se transformar em fobias ou em outras patologias mais graves. O psiquiatra e médico homeopata do Hospital Espírita de Psiquiatria Bom Retiro, de Curitiba (PR), Francis Mourão, tem visão semelhante à de Neuza. Ele também observa que o medo pode até ser necessário em algumas situações, mas é prejudicial se levarmos em conta que é “um estado de progressiva insegurança e angústia, de impotência e invalidez crescentes”, citando o autor Paulo
Dalgalarrondo. “Pode ser necessário para demarcar nossos limites, salientar a necessidade de melhor nos prepararmos para enfrentar uma determinada situação”, explica.

TIPOS MAIS GRAVES
Segundo o neurologista e psicoterapeuta Mário Márcio Negrão, o medo patológico pode aparecer quando o indivíduo já não tem mais a capacidade de avaliar a realidade do perigo ou o faz de maneira distorcida, o que advém da ansiedade. As conseqüências disso são várias, segundo Negrão: primeiro, a doença de antecipação negativa, quando o medo se manifesta por meio de uma “distorção da cognição que se esforça para prever um perigo que não existe ou ainda não chegou”. Segundo, o transtorno obsessivo-compulsivo, que ocorre quando o indivíduo busca proteção de um determinado medo sem necessidade. “Neste caso, pensamentos obsessivos – chamados assim por se
intrometerem em nosso pensar de maneira persistente, ilógica e intrusiva
– criam uma angústia que busca alívio nos comportamentos compulsivos, que são atos igualmente persistentes, intrusivos, ilógicos”, explica Negrão. Segundo o neurologista, há ainda a angústia de separação (quando a ameaça de perder alguém causa angústia excessiva), a fobia simples e a doença do pânico. “Esta última ocorre quando a distorção da percepção pode aparecer através da emoção forte do medo, quando a ameaça está totalmente invisível”, esclarece.
Essas patologias mais graves nem sempre podem ter solução, como explica a psicóloga clínica Clarice Vargas. “Há casos de transtornos psicóticos em que o tratamento consegue apenas minimizar o problema e/ou controlar os efeitos sistematológicos”, explica. Segundo Mourão, não existem fobias ou medos incuráveis, o que existe são pessoas com mais ou menos dificuldades de
enfrentá-los.

FAZENDO O ENFRENTAMENTO
Do ponto de vista espírita, o autoconhecimento é uma das ferramentas principais para que as pessoas façam o enfrentamento do medo. Lembrando que ‘enfrentar’ e ‘fazer enfrentamento’ são duas coisas diferentes: o termo ‘ enfrentar’ é mais utilizado no sentido de brigar ou discutir. Já o termo ‘enfrentamento’ pode ser empregado quando a pessoa tenta superar o, medo dando um passo de cada vez. “Independentemente do instrumento de que se faça uso, no sentido do crescimento – psicoterapias, meditação, exercício mediúnico, etc. – o caminho é aquele que trilhamos na busca de nós mesmos.
O medo exagerado, sintomático, é sempre alerta de algo que pede significação. Sempre que o medo se apresenta ele é o apelo para que busquemos significar algo que não faz parte do nosso entendimento presente. Alguém que tenha medo de elevador tem na sua história de vida a resposta
para a formação deste medo. Buscando a resposta, o sujeito proporciona a si mesmo a oportunidade de ressignificar uma crença que lhe é prejudicial. Removendo a causa, desaparece o sintoma”, diz Clarice. Já a psicóloga Neuza ressalta que algumas atividades, como exercícios físicos ou relaxamentos musculares, também são indicados, pois eles produzem endorfinas, que neutralizam a noradrenalina, que é o que provoca taquicardias. Outra dica é a exposição gradativa ao medo. Por exemplo: se a pessoa tem medo de dirigir, deve-se tentar fazê-lo, por poucos minutos, pelo menos duas ou três vezes por semana, dependendo do caso. Segundo Neuza, os medos têm como pano de
fundo a ansiedade alta que pode levar à fobia. E para isso ela orienta: “
As pessoas devem não se desesperar no dia a dia, devem deixar de lado a ansiedade de querer tudo e fazer tudo. As pessoas devem achar um tempo para se cuidar, para ler um livro, para fazer um exercício físico, para estar em contato com a natureza, para fazer um trabalho voluntário etc.”, avalia Neuza.
Para o neurologista e psicoterapeuta Mário Márcio Negrão, a fé é um grande alicerce para o enfrentamento dos medos. Segundo ele, parte-se do princípio de que o medo se torna perigoso quando “o perigo é fantasioso” ou quando o ser humano subestima suas capacidades. Então a fé pode auxiliar, e muito, nesta batalha. Já na opinião de Mourão, é preciso lembrar que as pessoas viveram experiências ao longo de milhares de encarnações, e que estas interferem no que somos hoje. “Carregamos uma bagagem cheia de traumas, que interferem na nossa existência atual”, comenta. Ele defende que as pessoas que sofrem com medos devem buscar conhecimento sobre o assunto e focar nos seus objetivos. “Assim elas revisam as experiências anteriores e planejam melhor os projetos futuros”, orienta.
Como afirma o espírito Marina Fidélis (outro orientador do portal SER Espírita) em mensagens psicofonadas por Cruz, não basta autoconhecimento e força para o enfrentamento: é preciso humildade, é preciso aceitar as perdas, as quedas diante dos desafios, os desencarnes, os erros, pois tudo isso faz parte da vida. “Precisamos aprender a cair, a errar, a morrer. Não é possível ganhar sem saber perder, não é possível andar sem saber cair, não é possível acertar sem saber errar, não é possível viver sem saber morrer. Em outras palavras, se temos medo de cair, andar será muito doloroso, se temos medo da morte, a vida será muito ruim, se temos medo da perda, o ganho nos enche de preocupações (…)”, afirma Marina.

 

edicao14CAPA DA EDIÇÃO 14

 

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